quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Origem da Família Tradill (Parte 1)




Quando os ventos do mundo começaram mudar, uma caravana de vinte Irdos caminhavam pelas terras de Arzum. Vinham de regiões mais orientais e buscavam as terras do sul, onde se dizia que a magia era mais bem vinda.

Vagavam há muitos dias, cuja conta fora perdida. Seus espíritos estavam exautos da viagem, mas ainda tinham no mínimo mais um mês pela frente.
Antes do anoitecer, encontraram uma vila e nela procuraram hospitalidade. Ao que parecia, pouco do que fora ainda era aquela vila, pois parecia abandonada.

Mal atravessaram as primeiras casas e um velho apareceu para eles perguntando quem eram e o que queriam.

- Somos apenas um grupo nômada que vêm paz, procurando as terras ao sul e, por esta noite, um local para descançar. – Respondeu Serpente, o líder do grupo.

- A paz há muito deixou este lugar. Mas pelo modo que estão vestidos, vejo que são Irdos... não precisam se alarmar, pois para mim são amigos.

O velhor, chamado Gum, levou-os até um grande estabelecimento, que antes era uma hospedaria, mas nos dias atuais não passava de uma casa abandonada.

- Talvez estes quartos lhe sirvam bem.

Depois de se dividirem em dois quartos grandes, Gum os levou a uma sala de jantar. Lá, encontraram outros moradores que ainda restavam naquele lugar, onde a única abundância era o medo. Sentaram-se numa mesa grande em companhia da esposa de Gum, uma senhora chamada Darta.

Um jantar simples foi servido e todos comeram em silêncio. A alegria parecia ser algo quase inexistente naquele lugar.

Depois de comerem, todos caminharam por um corredor até uma sala redonda. A noite já caíra e o local estava mal iluminado.

- É uma tradição a família se reunir após o jantar para conversar... em tempos passados, a conversa e o local eram mais alegres. Mas sei que os senhores não são daqui, se não quiserem partilhar de nossos costumes, sintam-se livres para irem a cama, ou onde sua coragem lhes permitir se for fora deste local.

Todo o grupo sentiu-se tentado ao descanço e grande maioria sucumbiu a tentação. Apenas Serpente e mais três homens ficaram, que se dispersaram pelo salão e conversaram com novas pessoas.

Serpente, entretanto, sentou-se com Gum.

- Então, meu caro Irdo, o que lhe traz aqui, de fato?

- Digamos que as artes que possuimos por natureza já não são tão bem aceitas no oriente. Estamos procurando terras mais amistosas para conosco.

- Mas são um grupo pequeno, pelo que vejo.

- Sim. Poucos pensam como eu e preferem fugir de problemas que são grandes demais para nós. Mas já que fala em grupos, todos aqui são de sua família, como você disse?

- Na cabeça sim. Depois de decair, todos os remanescentes formaram uma família. Os tempos pedem isso, infelizmente. Ao contrário de vocês, não temos para onde fugir.

- O que houve com este local?

Gum respirou fundo e começou a contar:

“Este vilarejo sempre foi pacífico. Nunca pensamos em guerras, mas tudo mudou quando a besta alada chegou ao Monte Aspam.

Isso aconteceu há uns três anos atrás. Ouvimos rumores sobre guerras no norte e muitos foram os viajantes que passaram por aqui, fugidos. Falavam sobre dragões atacando no norte, dragões que vinham de lugar nenhum. Dois dragões, mais precisamente.

A destruição do norte foi eminente, mas logo o terror desceu para o sul e eis que se instalou no Monte Aspam. As vezes, ele aparece voando no topo rochoso daquela agulha. Eu já o vi, duas vezes.

Desde que ele foi visto pela primeira vez, somado aos boatos vindos dos forasteiros, aqueles que tinham amigos ou parentes fugiram para terras mais distantes. O resto, ficou aqui, a mingua.

Confesso que foi melhor em alguns aspectos, pois todos os que não prestavam neste lugar se foram e, embora tenhamos uma vida simples, somos mais unidos. Até hoje o dragão nunca se aproximou daqui e espero que nunca chegue. Fico imaginando quem teria trazido tal criatura para estes lados e com quais propósitos.”

Quando Gum acabou de falar, olhou pela janela e suspirou. Quando Gum voltou de seus pensamentos, levantou com um sorriso leve no rosto. “Melhor dormir”, disse o velho.

Serpente permaneceu sentado, afundado em pensamentos. Quando seus companheiros voltaram para perto de si, não restava mais ninguém e, ali, sozinhos conversaram em voz baixa.
Conforme os companheiros falavam o que descobriram, Serpente se encheu de pena por aquele povo. Não acendiam fogo alto para não chamar atenção do dragão – fosse pela fumaça ou pela luz. A comida que tinham era produzida no subsolo, por uma arte aprendida com os Gaadul da Terra. A única fonte de carne que tinham eram os peixes que conseguiam pegar no rio que vinha do oceano, uma vez que não ousavam ter gado ou galinhas. Suas roupas eram velhas e muito remendadas.

Os Irdos ficaram um tempo em silêcio e foram para seus quartos. Serpente, entretanto, dormiu pouco, pensando em tudo o que ouvira naquela noite.

Na manhã seguinte, quando todos os Irdos já estavam acordados, Serpente os chamou e disse de seu desejo de ajudar aquela gente que, mesmo não tendo muito, lhes ofereceu comida e abrigo. “Aqueles que não quiserem me seguir, peço apenas que fiquem aqui e auxiliem esta gente da forma que puderem, usando da nossa mágica”, disse Serpente ao grupo.

Quando Serpente disse que estava disposto a escalar o Monte Aspam e descubrir o que pudesse e, se preciso, desafiar o dragão, todos os Irdo se perguntaram qual a loucura que dominava seus pensamentos. Serpente, entretanto, não respondeu as perguntas deste tipo.


- Partirei esta noite, logo que o sol cair. Aqueles que forem me acompanhar, estejam prontos. Não levem mais que o necessário.


O dia passou ligeiro. O almoço foi servido no mesmo local da janta na noite anterior, porém mais farto e saboroso, já que por ordem de Serpente, os Irdo usaram de suas mágicas para criar dois barris de água em vrosca.

Durante aquele dia, nenhum moinho foi movido, nem nenhuma árvore foi cortada. O único trabalho feito foi na cozinha.

- É a única forma que encontramos de agradecer pos sua ajuda, Senhor Serpente. – Disse Gum pouco antes da janta que seria preparada antes do cair do sol naquele dia.

Um grande jantar estava sendo preparado, um que o vilarejo não via há muito tempo.

Quando o jantar foi servido, Gum se sentou ao lado de Serpente, junto a sua esposa. Desta vez, sentou-se aquela mesa também Diana, sobrinha de Gum que na noite anterior estivera em outra mesa.

Durante o jantar, Serpente soube que três homens lhe fariam companhia na jornada que se aproximava: dois que ficaram no salão na noite anteior, Londe e Dral e mais um chamado Artro. Serpente sentia grande estima e amizade pelos três e ficou feliz por tê-los como viajantes.

Após o jantar, quando o sol já quase não passava de uma lembrança daquele dia, Serpente se levantou da mesa, acompanhado dos três Irdo. A pouca conversa que existia, se extinguiu por completo e todos os olhares se dirigiram a eles.

Gum se levantou, junto a eles e disse:

- Deste dia em diante, este lugar terá uma eterna dívida com os Irdo. Quando retornarem, você, Serpente, será meu senhor e minha esposa lhe serviremos como pudermos.

Os quatro, pegaram alguma comida e fizeram um pequeno estoque de vrosca. “A montanha não fica longe, acho que em quatro dias estaremos de volta”, disse Serpente.


Serpente confirmou que todos os Irdo que deveriam assistir àquele povo da forma que pudessem, que voltariam a rumar para o sul quando voltassem.

Partiram, então, sem muita cerimônia. Seguiriam por uma estrada que levava a sudoeste. O Monte Aspam ficava numa ilhota desabitada – principalmente por causa do dragão naqueles dias -, mas que não distava de um quilômetro da praia.

A ilha, chamada Aspam, havia sido lar de uma civilização de Gaadul da Água antes do dragão aparecer e todos fugirem. Mas graças aos Gaadul, é sabido que foi construído um pequeno cais no fim daquela estrada, onde talvez ainda encontrariam alguns barcos que os pudessem levar à ilha.

Caminharam em silêncio. Serpente analisava em pensamentos o grupo que tinha e sentiu um certo receio de levá-los para aquela montanha. “Quero deixar bem claro que estão livres para voltar se desejarem. Eu irei até o fim”, dizia Serpente muitas vezes durante o trajeto.

Depois de muito caminharem, com pouca conversa, chegaram a uma ponte. Uma ponte simples, feita de pedra e madeira, já não em ótimas condições. Ela cruzava um fosso, provavelmente construído pelos Gaadul para proteger seu cais.

- Este lugar parece ter sido esquecido por tudo e todos. – Disse Dral enquanto pulava de um buraco na ponte.

Quando o sol começou a nascer, os Irdo chegaram no cais e lá decidiram descançar.

Serpente e Londe vigiariam no primeiro turno. Tomaram um gole de vroska e ficaram sentados, na porta do que, outrora, deveria ter sido um depósito de onde chegavam e partiam mercadorias embarcados e desembarcados em dias mais gloriosos.

Serpente olhou para a direção do Monte Aspam. Mediu a distância com os olhos. Levaria algumas horas apenas para atravessar a faixa de oceano que separava a ilha do continente. Mas o Monte era cercado por uma floresta e atravessá-la poderia levar mais que uma noite.

Mais ou menos quatro horas se passaram quando, subtamente, o silêncio foi quebrado por um rugido ensudercedor. Serpente olhou rápido para a ilha e viu dois dragões voando no alto do
Monte e logo sumiram de vista.
Artro saiu depressa pela porta, seguido de Dral. Os quatro ficaram parados imóveis, apurando os ouvidos. Depois de passado o susto e nenhum outro sinal dos dragões aparecer, decidiram que era melhor trocarem os turnos.

Serpente entrou no depósito e deitou-se no chão, enrolando a capa para fazer de travesseiro. Serpente virou-se de lado, ainda calado e fechou os olhos, mas não conseguiu dormir.

Refletiu sobre o que sabia de dragões e se deu conta que sabia muito pouco para a aventura que se propusera fazer. Sabia que dragões eram em sua maioria ferozes e tinham vida longa. Seus poderes variaram de raça para raça. “Qual será a raça daquela criatura? Quais mágicas ele saberá fazer?”, perguntou-se Serpente.

Mais uma vez voltou o receio de levar os companheiros consigo e muito pensou sobre partir sozinho. Não sabia porque estava fazendo aquilo, mas não precisava levar três amigos à morte quase certa.


Depois de algumas horas inquietas, levantou-se e foi falar com os companheiros que estavam viajando.

- Senhores, agradeço o companheirismo, mas de agora em diante irei sozinho.
Ninguém respondeu. Serpente sabia que os dois estavam tentados a voltarem para o vilarejo.

- Não se preocupem, não os considerarei desertores se partirem. A fera tem o poder do medo em suas garras e dentes. E lembrem-se de que eu disse que poderiam voltar quando desejassem.

Dral abaixou a cabeça e refletiu em silêncio. Artro respondeu prontamente que ficaria com Serpente até o fim.

- Estamos juntos, Serpente. – Respondeu Londe da porta do depósito. Ele também não conseguira dormir, e foi totalmente desperto pelas palavras de Serpente. Dral confirmou com a cabeça, mas sem dizer nada.


Serpente se sentiu feliz com a fidelidade e coragem dos companheiros. Olhou, apontando com o dedo, para o cume da montanha e gritou: “Logo nos encontraremos, besta alada!”

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