sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Origem da Família Tradill (Parte 2)


Remover formatação da seleçãoO vigor pareceu voltar aos Irdos, mesmo com as poucas horas de descanço que tiveram. Serpente não mais sentia receio de viajar de dia. Sentia a Graça dos Telran.


Enquanto Serpente descançava, Artro procurou nas na parte de trás do cais e achou um barco que ainda estava em condições de ser usado. Artro fora marinheiro em tempos passados e sabia manejar barcos e veleiros com perfeição.

Preparam uma rápida refeição e, em menos de uma hora, já estavam todos dentro do pequeno barco e partiram do continente principal.

A viagem não durou muito e foi bem tranquila. Os ventos estavam favoráveis e as águas sem maiores agitações. A Graça continuava com eles.

Ao se aproximarem da ilha, notaram com mais clareza os restos de uma população viveu ali; destroços de madeira, restos de construções de pedra e pertences semi-enterrados na praia. Pouco do que fora o cais ainda existia.

Quando a embarcação chegou a ilha, Serpente pediu a Artro que amarrasse com corda o barco a um dos pilares de sustento do cais, que ainda sobrevivera na praia.

Serpente olhou adiante. A floresta não estava longe, tão pouco as horas de Eloaf.

- Melhor chegarmos na floresta antes que a noite chegue. – Disse ao grupo, que concordou.

Pegaram as bolsas no barco e caminharam pela praia, em direção à muralha verde que parecia cercar a montanha. O vento fresco batia nos cabelos e na capa douradas de Serpente e isso lhe dava prazer, pois fazia-o lembrar das épocas em que era jovem e tudo era belo.

A vegetação começou a mudar rapidamente: logo não estavam mais caminhando na areia, mas numa grama alta, há muito não pisada. O cheiro da vegetação parecia reanimar a todos, até mesmo Dral que parecia ser o mais amedrontado com a demanda.

Quando chegaram nas primeiras árvores da floresta, a noita já estava começada. Pararam um pouco para descançar.

- Agora que vamos adentrar a floresta, é melhor invertermos. Viajaremos de dia. Não quero arriscar fazer luz no meio da noite. Viajaremos mais um pouco antes de dormirmos.

Dito isso, levantaram-se todos e continuaram a caminhar, o que se mostrou mais fácil do que imaginavam, uma vez que a lua brilhava cheia e a floresta não era densa em sua copa ainda.

A floresta, assim toda pintada de prata pela lua, tinha um tom fantasmagórico. Serpente caminhaca na frente, atentando seus ouvidos a qualquer ruído que não fosse os pés dos Irdos esmadando uma folha ou galho seco. Seus olhos eram rápidos para todos os lados.

- O que foi, Serpente? Acha mesmo que não veríamos um lagarto de uns dez metros de comprimento se ele estivesse por perto? – Perguntou Artron.

- O que me preocupa não são os dragões. – Respondeu num sussurro – Em um momento mais apropriado eu explico. Mas todos vocês devem prestar mais atenção a tudo a nossa volta. Em silêncio.

- Por que não explica logo? – Perguntou Dral no mesmo tom de voz.

Serpente respondeu com um olhar que dizia claramente “Por que você ainda está falando?”
Caminharam por mais uma hora. Acharam um local entre as árvores para dormir. Londe e Dral fariam o primeiro turno.

Serpente deitou-se olhando para o céu. Entre as folhas podia ver a lua brilhando intensamente. Como Serpente amava a lua. Sabia que estava protegido e adormeceu.

Serpente tivera um sonho do qual não se recordou mais tarde, com exceção de uma voz forte e trovejante, mas não sabia o que ela dizia.

Foi acordado três horas depois por Dral, enquanto Londe faria o mesmo com Artron. Os dois sentaram-se numa raiz alta de árvore e apuraram os ouvidos e olhos.

Artron parecia impaciente. A lua estava mais baixa, de modo que não iluminava mais tão bem quanto antes. A escuridão parecia lhe deixar agitado. Olhou para Serpente, que parecia estar concentrado em olhar a noite, como se a escuridão não fosse problema para seus olhos.

Pela primeira vez, Artron começou a pensar sobre o líder daquele grupo.

Serpente apareceu trajando a mesma capa dourada que usava agora numa noite em Artrinco, uma cidade no extremo norte do continente principal. Uma suposta guerra contra os Irdo estava sendo formada, pois os Gaadul que lá moravam já não aceitava tão bem a magia e o método dos Irdo, que estavam dispostos a revidar na guerra.

Num momento de intenso desespero, Serpente surge e tenta convencê-los de que a guerra não adiantaria nada a não ser derramar sangue. Este propôs a fuga. Vários Irdo pensavam da mesma forma e destes poucos estavam seguindo Serpente, pois muitos dos que partiram de Artrinco ficaram pelas cidades visitadas pelos caminhos, com a bênção de Serpente.

Algo nele inspirava confiança nas pessoas. Nunca alguém perguntou qual era seu nome, ou por que usava o nome Serpente, ou de onde teria vindo... mas sua postura indica que ele foi um homem nobre em algum momento mais jovem de sua vida.

Artron voltou a si, não sabia quanto tempo tinha durado seu devaneio. Era comum a ele perder a noção do tempo quando se lembrava dos dias anteriores, quando vivia em paz.



Algumas horas depois, quando o sol já estava surgindo, Artron começou a preparar café enquanto Serpente acordava os outros dois.

Comeram rapidamente e tomaram mais um gole de vroska. A bebida desceu quente e revigorante.

Pegaram as coisas e começaram a caminhar floresta a dentro.

O ar fresco matinal batia na copa das árvores e sacudia suas folhas docemente, provocando um farfalhar agradável aos Irdos, que são seres ligados à natureza por sua própria natureza.

Tudo parecia bem, até que por volta das onze horas ouviram o hurro do dragão. Eles pararam, mas não viram a fera. Logo veio outro hurro, mais forte e brutal. O primeiro voltou a soar.

- Eles sabem que estamos aqui. – Disse Londe para si mesmo, olhando para o alto.

- Não. Eles estão brigando. – Respondeu Serpente.

- Pelo que? – Perguntou Dral.

- Território, talvez. Comida, quem sabe. Como eu saberia? – Respondeu Serpente – Vamos continuar com cuidado.

Caminharam mais duas horas, sem outros sinais dos dragões. Pararam somente para almoçar, mas não demoraram. Serpente queria chegar o mais próximo possível da montanha ainda naquele dia.

Conforme continuaram caminhando, a floresta foi se tornando mais densa, de modo que a luz começou a ficar mais rara dentro da floresta.

Dral insistiu para que pudessem usar luz. Serpente aceitou, desde que criassem uma pequena fonte de luz com a mão, que deveria ficar sempre apontada para baixo para apenas iluminar o caminho e dificultar a visão de alguém ao longe.

- Por que tanto problema com isso? Não há mais ninguém aqui, há? Todos fugiram, lembra? – Perguntou Dral enquanto uma pequena bola de fogo surgia em sua mão.

Serpente respirou fundo e começou a falar:

- Eu posso não saber muito de dragões, mas sei que eles só saem do lugar que vivem se perderam o lugar numa luta para outro ser mais poderoso. Na menoria dos casos um dragão selvagem se submete a outro ser... mas sendo esse o caso, não duvido que tenha sido mandado para cá de propósito, ou sozinho.

- Mas quais são as chances de um dragão se submeter a receber ordens? Isso é quase impossível! – Disse Artron, alterando um pouco a voz.

- São as mesmas chances de alguém derrotar um dragão. Entretanto, esse veio para cá... ou porque alguém o mandou, ou porque perdeu território.



Aquele dia passou sem mais problemas, bem como o dia seguinte, quando finalmente as árvores começaram a ficar mais espaças até se tornarem inexistentes, pois o solo agora era rochoso. Algum tempo mais de caminhada, e finalmente chagaram ao pé da montanha.

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